placeholder Ceu Azul placeholder
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placeholder vende-se placeholder
placeholder Vende-se apartamento. Vende-se carro usado. Vende-se geladeira velha. Vende-se camiseta. Vivemos no mundo do vende-se. Olho pela minha janela e percebo que o apartamento do outro lado da rua, onde sempre observei uma senhorinha simpática tomando banho de sol, está desocupado e à venda. Vou sentir falta daquela senhora. Na esquina, um alto-falante anuncia a chegada de uma drogaria nova: vende-se remédio com desconto. Será que a senhorinha está bem? O cheiro de pipoca invade meu quarto, é o pipoqueiro da esquina: vende-se pipoca salgada e doce ou as duas misturadas. Deu vontade; compro um saquinho de pipoca, e o sabor traz minha infância. Vende-se recordação? As vezes sinto que minhas verdades não me pertencem. placeholder
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placeholder Conheça o romance A razão do universo placeholder
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placeholder a nuvem placeholder
placeholder Olhei para fora da janela e vi uma nuvem passar. Era pequena, comum e não se podia atribuir qualquer semelhança à nuvem, conforme fazem as crianças e alguns adultos também. A nuvem não lembrava animais, objetos ou pessoas, era uma simples nuvem sem forma inspiradora, que se transformava, sim, com o passar dos minutos, conforme sempre fazem as nuvens, mas se transformava do nada no indefinido. Fiquei lá olhando e olhando, até que me dei conta de que não era uma nuvem; era um sonho em que deixei de acreditar. placeholder
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placeholder a praia placeholder
placeholder Quando mais novo, eu tinha esse sonho de estar numa praia paradisíaca com meus melhores amigos. Imaginava uma música animada, drinks, petiscos e muita diversão. Hoje ainda penso na mesma praia, mas ao invés da música imagino o sopro da brisa e o burburinho das ondas. Imagino um rio cristalino desembocando no mar e um peixe na brasa. Vejo-me abraçado por minha própria essência. De companhia, apenas gaivotas e um caranguejo maria-farinha. As vezes, quando fecho os olhos, sinto a areia deslizar por entre os dedos; nesses instantes a imensidão do universo cabe na palma da minha mão. placeholder
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placeholder lágrmias de amor placeholder
placeholder Ouço a palavra amor, e a imagem que vem a mente é de um rosto coberto por lágrimas. Não sei relacionar o amor a um casal feliz correndo pela grama verdejante. O amor, na minha concepção, é tão absoluto que a felicidade não o alcança. É um pássaro no invisível. É o beijo prisioneiro dos próprios lábios. É a luz da caixa de som no quarto escuro. É o vento que se espreme pela fresta da janela. É o barulho da chuva no vidro. É a árvore que suporta a tempestade. É o velhinho de terno na pracinha. É a chamada perdida no telefone. O amor é a corrida contra todos, inclusive contra nós mesmos. É a grandeza do impossível. É a lembrança daquilo que não aconteceu. É o abismo da razão. Na solidão da alma, as lágrimas são verdadeiras, e o sorriso engana. Ouço o galope dum cavalo numa estrada de terra batida. Abro os olhos, está escuro: à noite, eu me pertenço. placeholder
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placeholder quero me perder placeholder
placeholder Hoje eu me perdi e não me reencontrei. Para ser sincero, não quis me reencontrar. Desejei somente vagar por meu mundo paralelo em que o dia a dia não sabe me importunar. Onde as flores nascem de cabeça para baixo e os pássaros se calam curiosos. Aqui a noite é eterna, desde que eu não vá dormir. Fecho os olhos e sinto que não sinto. Abro a geladeira e nada retiro. Releio alguns trechos de textos que me agradam e finjo que as palavras são minhas. Imagino o sol nascendo e o despertador quebrado. Imagino alguém entrando no meu quarto e encontrando a cama vazia. O sono se aproxima, eu reluto, mesmo sabendo que terei de acordar cedo. Penso em algo que me foge. Por fim, adormeço. Desperto de manhã no reencontro com o compromisso. Estou com muito sono, mas sem arrependimentos. À noite, quero me perder de novo. placeholder
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placeholder palavras perdidas placeholder
placeholder Se há algo que aprendi sobre as palavras é o quão mais elas se aproximam da verdade, menos se quer ouvi-las. O mundo não quer novidades. As pessoas se escondem por trás de muros de ideias fixas e recebem de braços abertos qualquer texto que as situe dentro de suas mediocridades. Entrincheiradas contra o diferente, repetem e compartilham exaustivamente as mesmas ideias. Os melhores textos são, indiscutivelmente, os menos apreciados. Hoje entendo que quando as pessoas me ignoram é porque lhes mostrei uma porta alternativa. E sinto então a brisa da Bahia no meu rosto e o sabor colorido de um algodão doce das praças bucólicas do interior. placeholder
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placeholder teria errado menos placeholder
placeholder Aos dezesseis anos me apaixonei por uma moça simples, quando passei minhas férias escolares numa chácara de amigos. Certo dia vi uma morena de traços jambo-jabuticaba caminhar por uma estrada de terra. Eu era um rapaz tímido, mas a sincera simplicidade da moça me deu coragem para iniciar uma conversa. Ela contou ser filha de lavradores. Dali em diante, nos encontramos todos os dias, sem que possíveis diferenças sociais pudessem existir em nossa convivência. Falamos, rimos, jogamos pedras num riacho, dividimos pitangas, o tempo voou. Inevitavelmente chegou o dia de nossa despedida. Era uma tarde cinza-azulada de nuvens indefinidas. Cabisbaixo disse-lhe tchau e estendi-lhe a mão. Ela aceitou meu aperto de mão cordialmente, e de repente algo imenso de verdadeiro subiu pelo meu peito e nos beijamos. Então sorrimos encabulados e nos afastamos, cada uma para o seu mundo. Hoje, quando penso para trás, não lamento que deixei aquele amor adolescente se desfazer. Mas suspeito de que aquele beijo tenha sido o momento mais sincero de minha vida. Gostaria de ter pautado diversas decisões futuras na singela verdade que me preencheu durante aquele beijo. Teria acertado mais. Teria errado menos. placeholder
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placeholder ser golfinho placeholder
placeholder O vento arenoso arranhava a espinha. Maresia trazia o sabor da liberdade. A gravata já não sufocava esquecida ninguém sabe onde. O terno cinza, a camiseta branca, meias e sapatos, até mesmo a cueca, jaziam nas areias de Copacabana. Alguns curiosos estranhavam de longe o jovem empresário despido; associaram a nudez a algum distúrbio mental, loucos é que não faltavam no bairro. Uma senhora, indignada, pediu ao policial que tomasse providências, mas esse espiou o ponteiro do relógio indicando o fim do plantão e desconversou. O importado conversível, largado pelo empresário na beira da calçada, deslumbrava o segurança do pedaço: era o resumo de milhares de sonhos. Uma criança desentendida apontou para homem nu à beira-mar, a mãe fez-se de boba e partiu. A criança sentia e não entendia, enquanto a mãe entendia sem querer sentir.

O jovem empresário estava livre disso tudo, desse mundo estranho. Há poucos minutos era a maior fortuna da cidade, mas, agora, decidido, não tinha mais pertences e por isso mesmo percebeu-se rico como nunca antes. Queria virar golfinho, queria não, o seria. Saturado duma vida ausente de sentidos, jogar-se-ia nas águas de Copacabana para ser golfinho. Loucura? Não. Louco é o prisioneiro de si mesmo. E foi ser feliz, e foi ser golfinho.
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placeholder dor preciosa placeholder
placeholder Calada, abraçou os joelhos e escondeu o rosto entre as pernas. Que dor era aquela que lhe roubava o apetite e oprimia a respiração? sentia-se fraca incapaz; o estudo era uma missão impossível. Lá longe, sabia, as amigas conversavam animadas. Talvez estivessem no cinema? Sentia-se tão distante de tudo, como se estivesse num outro universo, num lugar em que as cores se pintam de dentro pra fora. Tudo era descolorido e, ao mesmo tempo, intenso. Chorou lágrimas que não molhavam. Talvez estivesse doente e apenas precisava dum médico. Existiria um remédio contra o que sentia? Difícil, concluiu. O único remédio contra a paixão é esquecer a pessoa que se ama. e isso ela se recusaria a fazer. Por mais dolorosa que fosse a paixão, era a coisa mais preciosa que possuía. placeholder
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placeholder a aviação tem pai? placeholder
placeholder A abertura das olimpíadas no Rio de Janeiro ressuscitou a discussão, com os americanos, sobre quem seria o pai da aviação: Santos Dumont ou os Irmãos Wright. A resposta não vai agradar nem a Gregos nem a Troianos. A verdade é que a aviação não tem pai nem mãe. Os brasileiros se indignam com o não reconhecimento de Santos Dumont pelos americanos, mas fato é que os brasileiros também fazem pouco da história dos Irmãos Wright. leia+ placeholder
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placeholder idade dos anjos placeholder
placeholder Uma vez, quando muito jovem, quis me apaixonar. Foi numa tarde de primavera na colônia de férias. Os demais garotos participavam animados de uma partida de futebol, quando, na beira do campo, vi uma borboleta azul e quis me apaixonar. Fui a procura das meninas que brincavam de fazer louças de barro e não achei quem merecesse minha paixão. Desiludido, caminhei até um riacho próximo, para refletir sobre a vida. Foi quando encontrei uma linda princesa, sentada à beira d’água, chorando. Perguntei pela razão das lágrimas, e ela não soube explicar. Disse apenas que estava muito triste. Então, levantou-se e saiu correndo. No dia seguinte, retornei para casa e nunca mais ouvi falar da menina da beira do rio. Mas me apaixonei. E durante quatro anos pensei nela todas as noites antes de dormir. Hoje ainda lembro dela, consciente de tamanha ilusão. Queria vê-la novamente, na idade dos anjos. placeholder
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placeholder meu querido irmão placeholder
placeholder Meu querido irmão era diferente. Comia com os dedos, cantava em idioma desconhecido, brincava com besouros, tomava banho de confetes, falava com as fadas, vestia a roupa ao contrário e fazia chá de grama. Meu querido irmão era um encanto de pessoa. Sempre sorridente, consolava a tristeza.

Certo dia uma junta médica decidiu por sua internação. Encheram-no de remédios, disseram que era para combater a doença. Meu querido irmão passou a comer de talheres e parou de cantar. Deixou os besouros de lado, esqueceu-se dos confetes e das fadas. Passou a vestir-se como a gente, que gente é essa, e nunca mais bebeu do chá de grama. Perdeu o sorriso; do consolo fez-se o silêncio.

Não demorou muito e meu querido irmão morreu. Disseram que foi da doença, mas eu sei, que os doentes somos nós.
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placeholder Textos de Felix Richter
Conheça também o romance A razão do universo
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